Pesquisa em Viana vai avaliar eficácia de imunização com dose reduzida da vacina AstraZeneca

Um estudo científico avaliará a efetividade da aplicação de meia dose da vacina da AstraZeneca/Fiocruz na população do município de Viana. A pesquisa Efetividade, Segurança e Imunogenicidade da Meia Dose da Vacina ChAdOx1 nCoV-19 (AZD1222) para Covid-19 vai realizar, no dia 13 de junho, uma vacinação em massa com meia dose do imunizante em toda a população adulta de 18 a 49 anos, que não faz parte de grupos prioritários estabelecidos no Plano Nacional de Imunização (PNI), além de acompanhar a resposta imune e sequenciamento genético da covid-19.

O estudo, de relevância mundial e o primeiro realizado na população de um município, é coordenado pelos professores da Ufes e pesquisadores do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam-Ufes) José Geraldo Mill e Valéria Valim, com a participação de pesquisadores da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (Emescam), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). O projeto, já aprovado pelo Comitê de Ética do Hucam-Ufes e pela Comissão Nacional de Ensino e Pesquisa (Conep), será executado por meio de uma parceria entre Ministério da Saúde (MS), OPAS, Fiocruz, Hucam-Ufes, Secretaria de Estado da Saúde (por meio do Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde - ICEPi), e Prefeitura Municipal de Viana.

A pesquisa, batizada de Projeto Viana, foi anunciada em entrevista coletiva (foto) realizada pelo governador Renato Casagrande na tarde desta sexta-feira, 4, com a participação da vice-governadora Jacqueline Moraes; do secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes; do reitor da Ufes, Paulo Vargas; da superintendente do Hucam-Ufes, Rita Checon; da coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fantinato; do vice-presidente da Fiocruz, Rodrigo Corrêa; da representante da OPAS no Brasil, Socorro Gross; do prefeito de Viana, Wanderson Bueno; de representantes do ICEPi; de pesquisadores e de gestores da área de saúde.

Renato Casagrande abriu a coletiva afirmando que o Espírito Santo passa a sediar um projeto de relevância internacional. “Estamos muito convencidos de que o estudo possa trazer o resultado esperado e, com ele, certamente teremos mais resultados no sentido de salvar vidas, o que também se traduz em resultados em termos econômicos. Isso vai ajudar o mundo inteiro, não só o nosso país”, ressaltou.

Momento histórico

A relevância do estudo foi reforçada pela representante da OPAS no Brasil, Socorro Gross: “Hoje estamos fazendo parte de um momento histórico, é uma honra estarmos com vocês. No mundo inteiro estão sendo feitos estudos para avaliar a eficácia das vacinas contra a covid e é exatamente isso que tem feito com que a ciência avance tão rápido. Com este projeto de Viana, será possível levar mais vacinas ao mesmo tempo em que serão geradas mais evidências que podem ser de grande utilidade para orientar a forma de vacinação no Brasil e em outros países. Sempre procurando ser mais eficientes e eficazes nas estratégias, e sempre procurando salvar a vida das pessoas”.

Gross destacou que a comprovação da eficácia do esquema que utiliza meia dose de vacina poderá dobrar a capacidade de vacinação, o que, consequentemente, acelerará o número de pessoas que poderão ser vacinadas, garantindo sempre uma proteção coletiva.

Ela lembrou que já houve experiências bem-sucedidas neste sentido, com doses fracionadas de 1/5 da vacina contra a febre amarela em 2018. “As doses reduzidas ajudaram o Brasil a se livrar do surto daquela doença. O Brasil, as instituições participantes e os vianenses darão uma contribuição histórica para as pesquisas sobre vacinação contra a covid-19”, afirmou.

Para o reitor Paulo Vargas, o Projeto Viana evidencia a importância de um trabalho conjunto no combate à pandemia. “Nesse momento, fica bastante evidente a importância de unir forças entre as várias instituições, e a Ufes, mais uma vez, se coloca à disposição na vanguarda da pesquisa do nosso país, buscando trazer as contribuições possíveis e necessárias para que possamos enfrentar esse quadro grave em que nos colocou a pandemia do coronavírus. Reafirmo a disposição da Universidade em se manter permanentemente colaborando com o governo do estado, com o Ministério da Saúde, e com as demais instituições na expectativa de que possamos, em conjunto, enfrentar da melhor forma essa grave crise e obter resultados pela via científica, desenvolvendo estratégias mais eficientes e eficazes para superar esse quadro tão triste”.

Desenvolvimento do estudo

De acordo com a coordenadora do projeto científico, a médica Valéria Valim, os moradores que ainda não tenham recebido nenhuma dose de vacina para covid-19 receberão duas doses de metade da dose padrão (0,25 mililitro), com intervalo de 12 semanas entre elas. O objetivo é analisar a efetividade da vacina ou o grau de proteção da população com o uso de meia dose, em comparação a indivíduos que foram vacinados com a dose padrão utilizada atualmente.

O professor José Geraldo Mill, que também está à frente da pesquisa, explica que este estudo se baseia em uma experiência realizada na Inglaterra: “Vamos avaliar qual o grau de proteção da população que receberá a dose reduzida. Foi feito um estudo na Inglaterra com um pequeno grupo de indivíduos, com uso de meia dose da AstraZeneca, que avaliou o que chamamos de resposta imune, ou seja, quanto de anticorpos as pessoas produzem. O estudo constatou que quem recebeu a dose completa e a meia dose teve resposta de produção de anticorpos praticamente igual. A hipótese principal do estudo é que esta meia dose também seja eficaz para prevenir a doença”.

Mill informou que, do total de pessoas vacinadas com meia dose, cerca de 600 pessoas serão acompanhadas ao longo de um ano. “Vamos coletar sangue periodicamente, exatamente para observar quanto que elas vão conservar de imunidade ao longo de um ano. Porque essa é uma questão que, hoje, não se sabe também em relação à vacinação comum, por quanto tempo essa imunidade vai permanecer”. Ele disse ainda que esses mesmos dados já vêm sendo analisados em um grupo de profissionais de saúde do Hucam, com a mesma faixa etária do estudo, que recebeu a dose padrão.

“Queremos observar a redução de casos e de mortes por covid-19 após a imunização, por exemplo. Baseado em estudos preliminares, esperamos que a vacina em dose ajustada, ou seja, metade da dose padrão, seja suficiente para produzir anticorpos e células de defesa e reduzir 60% da incidência de covid-19, ao longo de seis meses após a vacinação. Já temos evidências de que a meia dose é imunogência”, afirma Valéria Valim.

Ainda segundo a pesquisadora, serão observadas a efetividade vacinal por redução do número de casos, número de mortes, número de internações hospitalares e número de internações em unidades de terapia intensiva. Também será estudada a resposta imune com duas meias doses contra variantes do vírus, bem como a segurança por monitoramento dos eventos adversos pós-vacinação.

As doses da vacina AstraZeneca/Fiocruz para a realização do estudo foram doadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Público-alvo

A projeção da população-alvo para o estudo em Viana é composta por cerca de 35 mil pessoas que, conforme dados do IBGE, são: 7.154 pessoas entre 18-29 anos; 10.863 pessoas entre 30-39 anos; e 8.287 pessoas entre 40-49 anos, totalizando 34.867. Considerando a população selecionada, a meta é alcançar 85% de cobertura vacinal - 29.637 pessoas, sendo, aproximadamente, 47% do sexo feminino e 53% do masculino.

A participação no estudo é voluntária, mediante assinatura de um Termo de Consentimento. O cidadão vianense que quiser participar deverá realizar o agendamento da vacina a partir do próximo domingo, dia 6, na plataforma on-line vianavacinada.saude.es.gov.br. A vacinação será realizada das 8 às 17 horas, em 178 salas de vacinação distribuídas em 35 locais, diferentes dos locais onde estarão sendo aplicadas as vacinas para a população que, neste momento, faz parte dos grupos prioritários definidos pelo PNI.

Viana

A cidade de Viana foi escolhida por reunir as condições que atendem aos objetivos do projeto, como ser próxima e integrada à Grande Vitória, oferecendo facilidade logística. Também pela grande mobilidade urbana, pois fica às margens da rodovia que dá acesso a Vitória, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o que contribui para a situação epidemiológica de maior risco. Além disso, o município possui rede de atenção à saúde bem estruturada, com um número adequado de postos de saúde e logística de vacinação organizada.

O prefeito Wanderson Bueno comemorou a oportunidade de vacinar toda a população do município e afirmou que ele mesmo será um dos voluntários. Por ter 33 anos e não possuir comorbidades, ele está inserido no grupo participante do estudo. 

Ele destacou que a cidade está preparada para o que chamou de Dia D de vacinação. “Nós estamos organizados para receber todo esse público no dia 13, serão mais de 800 profissionais trabalhando. Com esse projeto, Viana abre as portas para o avanço científico no Brasil e no mundo. E nós temos a certeza de que esse é o mecanismo mais eficiente para combater esse vírus, além das medidas sanitárias e de distanciamento. A vacina é o que todos nós esperamos. Hoje são mais de 5 bilhões de pessoas no mundo que esperam por uma vacina e nós temos certeza de que este estudo pode dar uma grande contribuição para a população mundial".

Os participantes do Projeto Viana serão monitorados, orientados e atendidos para avaliação de eventos adversos. Aqueles que apresentarem evento adverso ou infecção por covid-19 serão atendidos na rede de saúde, seguindo os fluxos estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Texto: Thereza Marinho, com a colaboração da Unidade de Comunicação do Hucam-Ufes
Imagem: Hélio Filho/Secom Governo do Estad
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Publicada em 7 de junho de 2021.

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